Reflexões sobre o ato de viver

reflexão

Talvez o que torna a torna a vida mais complicada ao longo dos anos é a dificuldade de lidar com o fato de que tudo tem que morrer. Tudo, tudo mesmo. A plantinha que você ganhou naquele protesto no centro da cidade, a bateria do seu celular, os filhotes talvez recém-nascidos da sua cadela, a sua cadela, a sua personalidade, o seu caráter, a sua mãe, as amigas da igreja que sua mãe frequenta, aquele amor ardente da adolescência que fazia com que você sempre escrevesse o nome da pessoa amada na carteira da escola, as professoras, os seus colegas de classe, os pais dos seus colegas de classe, o desejo insano de ser o aluno mais popular da escola… Enfim, tudo morre. A questão é como e em quanto tempo temos pra comprar outra plantinha, outro animal, conhecer um novo amor. Esse processo é um tanto complicado, pelo simples fato de que você se sente traído pela própria vida. E garanto que em momentos como esse, o desejo de ter a vida de outra pessoa é praticamente incontrolável.
Mas não é.
Não mesmo.
E por que não é?
Porque nenhuma felicidade, nenhuma dor, nenhuma brisa de amor pode ser comparada com a outra. Por trás de cada olhar castanho, esverdeado, azul ou negro há sentimentos que nada no mundo pode descrever, muito menos desejar. É unicamente seu. E por trás de cada folha caída, cada lágrima derramada e escorrida numa lápide, por trás de cada “Nunca mais me ligue, seja feliz”, há sempre a esperança de que o tempo possa cicatrizar as feridas e que a vida nos dê uma nova chance de sorrir de orelha a orelha e que saibamos olhar para o nosso passado com ternura. Porque a esperança, ah, a danada da esperança… essa aí tem uma fortaleza indestrutível!

Hey!? Estou aqui!

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Ao longo desses dias eu só desejava uma coisa: Atenção. E quando não tinha a atenção que queria, pensava que não estava me esforçando o suficiente para alcançar tal objetivo. é como aquelas criancinhas que estão começando a distinguir o certo e o errado e que criam mil e uma artimanhas para conseguir atenção e talvez até admiração alheia.
O que é orgulho? Desde que passei a me sentir assim, acabei perdendo meus antigos conceitos de orgulho. O amor faz exatamente isso, te faz esquecer o que é razão, raciocínio lógico, orgulho e inúmeras coisas que o faz sentir independente de qualquer pessoa pelo resto da vida. Eu não escrevo essas palavras como uma mulher que faz questão em expor suas fraquezas femininas, mas sim de um ser humano que tem conhecimento dos prós e contras do amor.
E o amor é exatamente isso. Temos a total consciência do quanto somos amados, mas sempre precisamos ser relembrados, como uma mãe sempre dizendo ao filho o quanto ele é maravilho academicamente. É aí que o amor começa uma constante briga com a carência , e assim, tudo se liga. Carência lembra uma criança, que lembra atenção, que lembra o amor.
Não adianta ninguém dizer que sente-se suficientemente suprido de amor, sempre tem uma lasquinha lá bem escondida que necessita de atenção, carinho, beijos, abraços e palavras dóceis. Sem isso, essa lasquinha vai se aumentando, aumentando, aumentando até se perder em sua escuridão.

“Moça? Feche Suas pernas!”

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Estou sentada num banco de um ônibus público, voltando para casa. Homens, mulheres, idosos e crianças estampam seu cansaço rotineiro em suas testas. Alguns conversam com amigos, alguns até puxam papo com um desconhecido, outros (como eu) simplesmente navegam nas letras de um cantor talentoso. Fico num canto, olhando para a janela. Eu sempre gostei de ficar assim, observando a paisagem – que não era tão bela assim –, batendo meus dedos suavemente na janela e deixando que meus fones de ouvido cumpram a função de ecoar a bela voz de Corey Taylor sobre todo o meu sistema auditivo.

Um homem senta-se ao meu lado. Era alto, grisalho, com cheiro de borracha e tão acima do peso que parecia beirar uma hipertensão. O homem se reconfortou em seu assento, demonstrando a todos seu cansaço. Ele se recosta numa posição de pouco mais de 100° e navega em seu mundo interior. Ele parecia se sentir quase confortável.
Isso seria ótimo, se eu não estivesse pior graças a ele.
O desconhecido me esmagou para a janela do ônibus somente com suas pernas. Espero um tempinho, na esperança de ele estar apenas se espreguiçando, ou algo do tipo, mas o tempo passa e o senhor continua a me esmagar com suas pernas abertas.
Olho incrédula para ele, que esboça uma feição de questionamento, mas pouco demais torna a se recostar, ignorando minha presença, me comprimindo e estragando meu clima gostoso com a janela e a música de Corey Taylor. Ninguém olha para nós, ninguém diz nada, ninguém vê o erro.
Porque aquilo era… “normal”.
Enquanto era espremida como uma lata de refrigerante, me peguei pensando sobre aquilo, e percebi algo.
Eu não consigo me sentar com as penas abertas.

Sempre fui criada de forma conservadora, forma esta que abomina determinadas atitudes vindas de uma mulher, como sentar-se com as pernas abertas. Hoje, por educação – ou não –, eu simplesmente não consigo sentar-me relaxadamente não somente em lugares públicos, como também em minha própria privacidade.
Eu não consigo “deseducar” meu corpo neste quesito, mesmo sabendo que esse tipo de repreensão sobre as mulheres é simplesmente um reflexo de uma sociedade conservadora e patriarcal. E realmente não há resposta plausível para se justificar o fato de o homem poder sentar-se da forma que quiser e a mulher não. Mas algo é evidente: o homem é privilegiado.
A sociedade acha feio e desrespeitoso ver mulheres sentando-se com suas pernas abertas, alguns relacionam seu repúdio com a impressão de que quando a mulher senta-se com as pernas abertas, está querendo expor sua genitália (como se os homens não tivessem uma), mas para o homem, não há nada de errado nisso.

E mesmo tendo consciência de que o machismo é evidente demais nessa situação, eu simplesmente não consigo me sentar com as pernas abertas.
Meu cérebro foi trancado por correntes que em toda a sua composição férrea estava gravado: “isso é certo” e “isso é uma abominação”. Meu cérebro estava em sono profundo, e mesmo tendo despertado, sente os reflexos da corrente conservadora. Mas esta é apenas uma suposição para o fato de eu não conseguir me sentar com as pernas abertas.

Acho que estou livre, mas não me sinto. E me sinto livre, mas não estou.

 

 

Um tipo diferente de amor

Este não é um conto de fadas.

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Existe um tipo de amor que é meio… estranho. Um tipo de amor que não costuma dar as caras nos filmes de romance, mas que se faz presente em muitos casos  Um tipo de amor que supera limites que muitos sentimentos não conseguem ultrapassar.
Existe um tipo de amor que cuida de uma maneira tão espetacular, de um jeitinho que nem os chás quentinhos que a sua mãe sempre faz conseguem te deixar sentindo uma pessoa mais feliz e amada. Um amor que te protege do frio, do perigo, da chuva, do sol, de qualquer coisa que possa lhe fazer mal. Abre a porta do carro pra você, diz que você é a pessoa mais linda do mundo. Brinca com seus cabelos, acaricia e beija levemente seu rosto, diz coisas maravilhosas. E sempre, sempre faz você se sentir seguro.
Existe um tipo de amor que quer lhe ter o tempo todo. Um amor que lhe faz sentir uma pessoa desejada, um amor que faz com que você nem pense duas vezes antes de remarcar o encontro com seus melhores amigos para a próxima semana. Seus amigos entendem, eles precisam entender, aquele amor é único e te faz transbordar.

Existe um tipo de amor que sorri de maneira diferente quando você consegue aquela promoção na empresa que trabalha por tantos anos. Aquele mesmo sorriso maravilhoso que encheu seu coração de amor e esperança de maneira instantânea, porém um sorriso sem brilho, sem aura. Existe um tipo de amor que sempre adora falar de suas conquistas e o quanto é uma pessoa boa pra você. E claro, você não se incomoda com isso, pois você tem a certeza de que essa pessoa é maravilhosa.

Existe um tipo de amor que não simpatiza com sua melhor amiga. Um tipo de amor que a acha uma pessoa desprezível o bastante para você manter a maior distância possível. “Ela nem se dá o respeito”, seu amor diz. E você, claro, se afasta. Seu amor é tão inteligente, deve saber o que está falando. Existe um tipo de amor que odeia a ideia de ver você com aquele seu amigo que trabalha no mercadinho da esquina e toca guitarra com os amigos na garagem dos pais aos fins de semana. “Uma pessoa dessas vai atrapalhar a sua imagem”, e você mesmo não concordando muito, decide afastar-se.

Existe um tipo de amor que briga com você por ter adicionado uma moça no Facebook. A culpa foi sua, seu amor diz. A culpa foi sua? Mas foi só uma… Ei, claro que a culpa foi sua! Vocês brigam e a ideia de perder seu amor é tão assustadora que você prefere clicar no ícone “desfazer amizade”. Existe um tipo de amor que lhe acha linda com aquela roupa, contanto que você apenas a use em casa, para ele. Você se irrita, afinal de contas, é uma de suas peças de roupa favoritas, que você comprou para ir ao aniversário de um parente tão querido. Você se irrita, mas no final das contas, não vai doer em nada vestir uma calça. Ah, existe um tipo de amor que não vê motivos para você sair com seus amigos, mesmo depois de você ter remarcado aquela cervejinha com conversa fiada sobre os tempos de escola por tantas vezes. “Só não remarcar mais. O que custa ficar comigo?” O aniversário de seu parente querido? Sua família nem vai perceber sua ausência. Sua família não gosta de você. Na verdade, ninguém gosta de você, ele diz. Apenas seu amor. Você se sente sortudo por ter essa pessoa ao seu lado e decide não ir ao aniversário.

Existe um tipo de amor que não gosta da sua mãe. Sim, a sua mãe, que sempre fora tão carinhosa e presente em sua vida. E sua mãe também não gosta do tipo de amor ao seu lado. Ela diz coisas sobre dominação e abuso, mas seu amor diz que é a idade. E realmente, sua mãe tem envelhecido tão depressa! Você ignora e sorri ao pensar que os dois apenas sentem ciúmes de você e mais uma vez você se sente uma pessoa sortuda.

Existe um tipo de amor que grita com você. E você, pela raiva do momento, também grita com seu amor. Seu amor condena você por você ter gritado, e no fim das contas, lá está você, pedindo desculpas, entre soluços e lágrimas, por ter gritado com o seu amor. Existe um tipo de amor que grita com você enquanto te empurra. E você antes mesmo de pensar em dizer alguma coisa, sente a pressão do punho de seu amor sobre seu rosto, que um dia foi acariciado e levemente beijado. Dor. Decepção. Tristeza. Vergonha. Você carrega seu gatinho ainda filhote, diz que vai pegar suas coisas, ir embora, encontrar seu destino na estrada amarela de Dorothy. Você ouve que nunca vai encontrar alguém no mundo como seu amor. Que nunca será feliz sem seu amor. E com lágrimas lutando para serem derramadas e com aquele aperto agoniante no peito, você concorda. Você nunca encontraria alguém que o abrace de maneira tão gentil e protetora, que o proteja daquela maneira, que cuida de você para que nenhum mal aconteça.

Existe um tipo de amor que humilha você. Diz coisas horríveis sobre sua pessoa, faz você acreditar que é um ser desprezível e que é um grande favor seu amor estar ao seu lado. Pois no fim das contas, seus amigos, seus parentes queridos e até mesmo sua mãezinha, todos se afastarem de você. Apenas seu amor está lá. E apesar de seus defeitos, seu amor ama você.

Existe um tipo de amor que gosta do sabor de outros lábios, da cor de outros olhos, da textura de outros cabelos, do cheiro de outras peles. E você sabe, no fundo você sabe. Mas lá está você, ao final do dia, sorrindo e esperando aquele maravilhoso sorriso que enche seu coração de amor e esperança de volta. Mas você recebe apenas uma saudação e se sente feliz por seu amor ainda estar dialogando com o ser ruim que é você

Existe um tipo de amor que abandona você. Diz coisas horríveis a você e simplesmente vai embora, ignorando completamente suas súplicas, seus soluços e suas promessas de mudança. E no fundo, você não tem nenhuma noção em sobre o que poderia mudar. Apenas quer seu amor ao seu lado, cuidando e protegendo você. Mas seu amor não perdoa. Seu amor vai embora e promete nunca mais voltar.

Existe um tipo de amor que é abusivo. Que controla, que impõe, que restringe, que manipula. Que erra e age como se o erro fosse seu. Que inveja seu crescimento como ser humano e faz você se sentir horrível. Que lhe afasta de pessoas que desejam seu bem, que faz você acreditar que essas pessoas são ruins. Que cada dia mais vai sugando um pedaço do eu que você já nem mais conhece. Que lhe maltrata e diz ser seu amor. E por mais cruel que pareça, existe esse tipo de amor.

Mas acredite, não amar mais essa pessoa é a melhor coisa que pode acontecer em sua vida.

Eu gosto de ser branca.

Por que também não a consciência negra? Excelente texto

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Eu gosto de ser branca. Eu gosto da cor da minha pele, eu gosto dos meus traços, eu gosto do meu cabelo lisinho e meio loiro. E sabe por que eu gosto? Porque sempre foi muito fácil gostar. Nunca, implícita ou explícitamente, alguém me disse alguma coisa que me fizesse sentir que havia algo de errado, algo de feio, algo de esquisito, na minha pele branquinha, no meu cabelo loirinho. Nunca disseram pra minha mãe que ela deveria fazer alguma coisa a respeito do meu cabelo. A maioria nas universidades é branca. A maioria nos concursos públicos é branca. São os brancos também que tem mais dinheiro.

Sou mulher, e já fui destratada de diversas formas e sofri violências de diversos tipos por ser mulher, e as vezes por outros motivos, mas nunca simplesmente por ser branca.

Então, gostar de ser branca eu até posso dizer que gosto, porque as…

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